Segunda-feira, Janeiro 08, 2007

As conchinhas do meu mar




Neste silêncio cortado pelo som da ribeira em que a várzea dormita, com uma teia de luar a baloiçar na minha janela, à luz de duas velas, eu escolho as conchinhas, separo-as:
amarelas, alaranjadas ( como o Sol ); rosadas ( como as núvens de um entardecer quente ); branquinhas ( como a espuma do mar ); acinzentadas ( como o lusco-fusco ).

Coloco-as em grupos conforme o formato. Disponho-as em carreiras: das maiores às mais pequenas, subindo na tela que preparei. Faço um desenho forte de quase arco-íris. Estão todas nos seus lugares e começo a colá-las à base para as segurar no esquema que imaginei.

Pego numa e noutra e, de cada vez que o faço, vejo um sorriso, ora de um neto ora de outro. Foram eles que as apanharam, num dia repleto de Sol, à beira-mar, uma leve brisa levantando-lhes os cabelitos, muitos salpicos de água e sal à mistura e um saco que ía ficando cheio, cada vez mais cheio de conchas variadas e areia, muita areia... Todos queriam participar, apanhar as mais bonitas. Escolhemos as melhores, no meio de incompreensões e malandrices. Partiram-se conchas, esconderam-se conchas, trocaram-se conchas, roubaram-se conchas...

O quadro está pronto, a cola a secar; vou pendurá-lo num canto da parede onde eu o possa ver bem e, assim, rever o rosto de cada um dos meus botões-de-rosas a desabrochar. Reconheço-lhes as carinhas associadas a cada concha, ouço-lhes os risos e uma paz imensa penetra-me a alma.

M. Rasa, 6 de Janeiro de 2007

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