Quinta-feira, Dezembro 14, 2006

Fernando Torres - O último homem da Junta

Todos os membros originais da junta militar que derrubou Allende e o seu governo, com o conhecimento e apoio directo do governo dos Estados Unidos, já partiram.

Nixon já partiu; Kissinger ficou sozinho na Terra.

Agora nunca saberemos a quantidade de segredos e as memórias que arrastaram com eles para a tumba. Nem o paradeiro dos desaparecidos - um só que seja. Espantar-me-ia que a justiça prevalecesse e caísse sobre Kissinger, o último homem da Junta. F. T.

"Não vejo porque devamos esperar para ver um país ir para o comunismo devido à irresponsabilidade do seu povo. As questões são demasiado importantes para que deixemos os eleitores chilenos decidirem por si próprios." - Henry Kissinger

Carta aberta a Henry Kissinger

Não fui um dos chilenos "irresponsáveis" senhor, mas sofri uma pena pesada pelas suas palavras.

Senhor Henry Kissinger
Kissinger Associates
New York

Lembro-me da sua repreensão aos chilenos, quando elegeram o socialista Salvador Allende em 1970: "Não podemos permitir que um país vá para o marxismo só porque o seu povo é irresponsável".

Se bem que estivéssemos habituados a esta retórica vinda da Casa Branca naqueles anos, não imaginávamos que essas suas palavras vergonhosas iriam eventualmente selar o futuro do Chile ao mais horrendo episódio da história da América Latina. Sim - devo dizê-lo - nós subestimámo-lo, Senhor.

Bombas a cair do céu, torres e edifícios destruidos,a carnificina de centenas de pessoas. Milhares de desaparecidos e estádios de futebol transformados em campos de concentração. Lembra-se disso, do seu próprio 11 de Setembro?

Desde o primeiro dia; desde antes de Allende ter sido ractificado pelo parlamento chileno como o legítimo presidente, o Senhor, Secretário de Estado e Conselheiro da Segurança Nacional, o Senhor Henry Kissinger planeava secretamente derrubar Allende. Conjurou o assassinato do General René Schneider - que apoiava a Constituição chilena - de forma a provocar um golpe militar.

Planeou a política da "dupla via" relativamente a este pequeno país que pretendia, com uma mão, isolar Allende internacionalmente e, com a outra (mais suja), provocar o golpe militar através de assassinatos, subversão política e sabotagem económica.

O seu objectivo, Senhor Kissinger, ao reunir os dirigentes militares dos países vizinhos para pressionar o Chile, na operação que mais tarde se denominou "Operação Condor", foi a coordenação das polícias secretas para trocarem informações e prisioneiros, levarem a cabo raptos, torturas e assassinatos como o de Orlando Letelier e seu ajudante de campo Ronni Moffit em Washington DC, realizado por terroristas chilenos e cubanos sob o comando dos agentes Michael Townley e Novo Sampol da CIA (que mais tarde foram condenados no Panamá por vários ataques terroristas e pela tentativa de assassinato de Fidel Castro, tendo sido libertados depois sob os auspícios dos Estados Unidos, que puxou os cordelinhos à sua marionete, o presidente demissionário Mireva Moscoso).

Você, Senhor Kissinger, e Nixon mentiram ao Congresso, prestando informações falsas e assegurando que os Estados Unidos não desempenharam qualquer papel no esmagamento da democracia chilena. Deve saber que naqueles tempos não havia o perigo das aludidas "armas de destruição maciça", mas sim o "perigo" da expansão do comunismo no cone Sul. Acreditou que o povo "irresponsável" do Chile representava um mau exemplo: Chile era um punhal cravado no coração da América. Um punhal que havia que remover a qualquer preço. Allende tinha que ser travado, ainda que ao preço da própria democracia.

Porque o 11 de Setembro de 1973 foi da sua absoluta responsabilidade, Senhor Kissinger, nós, o povo "irresponsável" do Chile, nomeamo-lo a versão chilena de Osanma Bin Lagen, para dizer o mínimo.

Senhor Kissinger, eu não fui um "irresponsável" chileno porque tinha 14 anos e não pude votar; mas na realidade paguei a pesada e sangrenta factura das suas palavras por inteiro, Senhor. No entanto, pensando no papel que desmpenhou não só no Chile como na Indochina, Timor Leste, Chipre, a sua traição aos curdos no Iraque, o seu apoio incondicional à segregação racial na África do Sul, etc, etc, eu posso dizer algo que o senhor não pode: as minhas mãos estão limpas.

Sinceramente

Fernando A. Torres

Traduçao da versão em inglês:
The Last Man of the Junta
Publicado em
CounterpunchCounterpunch em 12/12/2006

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