Quarta-feira, Novembro 22, 2006

Laurent Lafforgue - Testemunhos de professores

O sentimento que domina a maior parte dos professores é o da impotência face a situações que os ultrapassam. Em todos os níveis, desde o básico, ao secundário e à universidade, alguns confessam sem rodeios que já não podem dispensar um ensino digno desse nome, tal a falta de bases dos alunos, de hábitos de estudo disciplinado, de rigor e de exigência. É notável que os professores não lamentem apenas as insuficiências dos alunos nas suas próprias disciplinas, mas unamimamente as carências em francês e - no caso dos professores de física e de outras disciplinas de ciências naturais - as carências em matemática.

É também notável que muitas lacunas detectadas por professores em alunos da universidade ou das classes preparatórias aos institutos superiores remontem à escola primária: desconhecimento da gramática das orações e da análise gramatical, ortografia fantasiosa, incapacidade de escrever uma única frase correcta, incapacidade de raciocinar, incapacidade de completar cálculos simples sem se enganarem, etc. Os professores do básico e do secundário assinalam também a falta de memória dos alunos - fenómeno estupidificante entre os adolescentes - e que resulta certamente de a memória não ter sido exercitada na escola primária, fazendo com que decorassem textos.

Alguns foram tentados a descartar o programa muito desestruturado e vazio de conteúdo para tentar re-ensinar as bases sólidas. Os professores de letras podem fazê-lo em alguma medida, e isso permite a muitos deles reparar os estragos mais gritantes. Mas no básico e mais ainda no secundário, os professores de ciências chocam depressa com uma parte dos pais dos alunos, que se recusam a acreditar que as bases fazem falta, e que querem a qualquer preço que o programa seja respeitado, não se preocupando com mais que a passagem de classe e o diploma de formação. Estes pais estão prontos a queixar-se à administração, e esta a voltar-se contra os professores. Tive conhecimento de um caso de um professor de matemática, suspenso por ter tentado ensinar a aritmética das fracções a alunos do secundário que não a dominavam.

Excerto de Il faut sauver l'école !

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2 Comentários:

At 23:16, Blogger Paulo G. disse...

Já li o texto, mas realmente vai ser demorado traduzi-lo e mesmo para o transformar em imagem não é lá muito rápido, mas vou tentar.
(educar.wordpress.com)

 
At 07:56, Blogger António Chaves Ferrão disse...

Se um professor, como Lafforge, no fim da sua carreira profissional, ainda descobre energias para sintetizar toda a sua aventura, em vez de tentar esquecê-la, creio que vale a pena prestar-lhe alguma atenção. É muito curioso que ao lê-lo, nem nos apercebamos de que está a falar da realidade em França, tal é a semelhança das situações. Tentarei reflectir mais algumas passagens deste texto porque sei que a bela langue française tem sido preterida no Ensino em Portugal.

 

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