A interrupção da democracia
Recuso-me a enfiar a carapuça de estúpido que a classe política me pretende enfiar com a convocação de um referendo.
Quando se convoca um referendo, está-se a admitir que as instituições aceitam a sua incapacidade em legislar por si próprias acerca de determinado assunto.
À primeira vista, está-se a dar a palavra à população, e a desculpabilizar as instituições do veredito final.
O problema coloca-se quando, depois de um referendo, se volta a insistir na convocação do mesmo, em virtude do seu resultado ter sido diferente daquele que os seus promotores esperavam.
Com a agravante, de nem sequer se ter modificado uma vírgula que fosse ao articulado da pergunta.
Quer dizer, as mesmas instituições que reconhecem a sua incapacidade para tomar uma decisão, vêm agora estender a mesma incapacidade a toda a população, e tudo isto até que um dia, por obra e graça sabe-se lá de que efeito, apareça uma deliberação que esteja mais de acordo com as expectativas daqueles que se recusam a assumir o ónus da decisão como seu, e não dos outros.
Se a lei que está em vigor não foi resultante de nenhum referendo, porque é que é preciso um referendo para alterá-la? Simplesmente, para dispensar os políticos da sua justificação.
Relativamente à pergunta em si, ela constitui um insulto à inteligência de qualquer um. Quando se fala em interrupção, admite-se a expectativa de que o processo venha a ser retomado. Pode-se interromper uma leitura, umas férias, os estudos; não se interrompe o casamento, uma execução, uma ditadura.
Os oito anos em que o debate não chegou a ser interrompido, não foram suficientes para se conseguir elaborar uma pergunta que não constituisse um insulto à inteligência humana; faz sentido, uma vez que uma pergunta inteligente fugiria automáticamente ao consenso da classe política.
Como é que uma pergunta que coloca no mesmo cesto, uma criança que foi abusada por um lobo mau, e uma mulher madura que se distraiu, pode configurar de alguma maneira, uma deliberação para uma decisão responsável?
Com certeza que haverá mil e um argumentos tanto de um lado como de outro, mas francamente, uma pergunta como aquela que pretendem colocar no referendo, para descer a um nível tão baixo eu pessoalmente acharia sempre mil vezes mais democrático, deixar a decisão aos políticos. Mesmo que sejam apenas os políticos que temos.
Prefiro que interrompam a democracia do que insultem a inteligência humana.



4 Comentários:
Se defendesse o referendo qual acha que poderia ser a pergunta a colocar aos portugueses?
Para mim, a única pergunta possível seria a mais simples: Aborto, Sim ou Não?
Tudo o resto, correria por conta das instituições aos mais diversos níveis, entre autoridades médicas, legislativas e judiciais.
shame on you MSN you INSAULT INDIA
shame onu
singh is king
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