Bernard Favre - Um contexto hostil à escola
Para um sociólogo, os obstáculos para uma cultura comum entre professores e pais, tendo em conta desajustes pessoais e de relacionamento, entroncam em aspectos de primeiro plano da sociedade contemporânea.À frente, destaca-se a emergência de correntes de pensamento anti-intelectualistas e populistas: tudo podería ser resolvido com golpes (coups) de receita simples, sejam problemas económicos, políticos ou educativos. Muitos economistas, e não dos menores, puseram a descoberto a extrema indigência dos pressupostos teóricos subjacentes às teses neoliberais. Também não é preciso ser grande estadista para reparar que, entre aqueles que se opõem à inovação da escola, há falta de informação, vontade de não-saber e semi-inteligência. Como podería isto deixar de ter consequências na desvalorização da aprendizagem escolar que se observa em algumas famílias?
A insegurança em que vivem numerosas famílias (receio do despedimento, do desemprego, do repatriamento ao país de origem), também não ajuda a lidar com a complexidade do sistema educativo. A discussão sobre as notas é disso um indicador: qualquer que seja a fundamentação sobre formas de avaliação mais ajustadas ao desenvolvimento intelectual e sócio-afectivo geral, a premência da nota é recorrente para os pais. Têm necessidade de números, ou seja, de referências que acreditem ser seguras. De uma forma geral, a insegurança leva à rejeição da complexidade e constitui um obstáculo a uma reflexão mais aprofundada sobre os assuntos escolares.
Mais perniciosa ainda, para o desenvolvimento de uma cultura comum entre pais e professores, é a ideia de que a missão única da escola é a de assegurar o sucesso individual: de onde o surgimento de um conjunto de pais, que me parece significativo, que são militantes de uma escola selectiva, que distinga os seus filhos dos demais, os diferencie de forma a assegurar-lhes um futuro profissional brilhante, muitas vezes em deterimento da sua formação sócio-afectiva, nunca devidamente avaliada. A que se juntam numerosas estímulos ao consumo desenfreado cujo resultado é tanto mais forte, quanto mais fracos forem o desenvolvimento do espírito crítico e da capacidade de reflexão autónoma. Nestes termos, mais valeria pouca escola que demasiada escola.
Globalmente, as mensagens difundidas pelos órgãos de comunicação, pela publicidade, pelo senso vulgar, pela moda e pelos modos de vida que nos impõem os ditames da economia de mercado a qualquer preço (crescimento dos dividendos cada vez mais altos até ao risco de desaparecimento das empresas) não favorecem o desenvolvimento de uma dinâmica sócio-educativa forte entre as escolas e as famílias àcerca dos requisitos da aprendizagem.
Mas só esta dinâmica poderá transformar a escola numa cidade educativa juntando alunos, professores, pais e representantes da comunidade em torno de um projecto partilhado, uma cidade constituindo um espaço de liberdade capaz de aplicar os valores que justificam a sua existência; abertura ao saber, à apropriação dos meios de compreensão do mundo nas suas várias dimensões, ao desenvolvimento das competências individuais e de relacionamento (tolerância, respeito, solidariedade e cooperação) que nos permitem viver juntos.
Tradução (excerto) de:
Culture commune autour des apprentissages



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