Domingo, Setembro 10, 2006

15 de Setembro de 1765 - nascimento de Bocage

"Liberdade, onde estás? Quem te demora?"

http://ferrao.org/musica/8%20-%20Lua%20cheia%20-%20Jorge%20Ferrao.mp3



http://purl.pt/1276/1/

http://www.jfss.pt/content/index.php?action=detailFo&rec=1215


Nestes dois últimos endereços podemos entreter-nos com o que foi e representou Bocage.
De espírito crítico, ávido de justiça, de experiências, de sensibilidade extrema, pode dizer-se que tem actualidade, ou que continua a ter actualidade, a sua frontalidade e irreverência, face aos desmandos dos actuais poderes, em todo o mundo. Senão leia-se , do poeta, a sua:

Epístola a Marília

Pavorosa ilusão de Eternidade,
Terror dos vivos, cárcere dos mortos;
D'almas vãs sonho vão, chamado inferno;
Sistema de política opressora,
Freio que a mão dos déspotas, dos bonzos
Forjou para a boçal credulidade;
Dogma funesto, que o remorso arraigas
Nos ternos corações, e a paz lhe arrancas:
Dogma funesto, detestável crença,
Que envenena delícias inocentes!
Tais como aquelas que o céu fingem:
Fúrias, Cerastes, Dragos, Centimanos,
Perpétua escuridão, perpétua chama,
Incompatíveis produções do engano,
Do sempiterno horror horrível quadro,
(Só terrível aos olhos da ignorância)
Não, não me assombram tuas negras cores,
Dos homens o pincel, e a mão conheço:
Trema de ouvir sacrílego ameaço
Quem d'um Deus quando quer faz um tirano:
Trema a superstição; lágrimas, preces,
Votos, suspiros arquejando espalhe,
Coza as faces co'a terra, os peitos fira,
Vergonhosa piedade, inútil vênia
Espere às plantas de impostor sagrado,
Que ora os infernos abre, ora os ferrolha:
Que às leis, que às propensões da natureza
Eternas, imutáveis, necessária,
Chama espantosos, voluntários crimes;
Que as vidas paixões que em si fomenta,
Aborrece no mais, nos mais fulmina:
Que molesto jejum roaz cilico
Com despótica voz à carne arbitra,
E, nos ares lançando a fútil bênção,
Vai do grã tribunal desenfadar-se
Em sórdido prazer, venais delícias,
Escândalo de Amor, que dá, não vende.
II
Oh Deus, não opressor, não vingativo,
Não vibrando com a destra o raio ardente
Contra o suave instinto que nos deste;
Não carrancudo, ríspido, arrojando
Sobre os mortais a rígida sentença,
A punição cruel, que execede o crime,
Até na opinião do cego escravo,
Que te adora, te incensa, e crê que és duro!
Monstros de vis paixões, danados peitos
Regidos pelo sôfrego interesse
(Alto, impassivo númen!) te atribuem
A cólera, a vingança, os vícios todos
Negros enxames, que lhes fervem n'alma!
Quer sanhudo, ministro dos altares
Dourar o horror das bárbaras cruezas,
Cobrir com véu compacto, e venerando
A atroz satisfação de antigos ódios,
Que a mira põem no estrago da inocência,
(. . .)
Ei-lo, cheio de um Deus, tão mau como ele,
Ei-lo citando os hórridos exemplos
Em que aterrada observe a fantasia
Um Deus algoz, a vítima o seu povo:
( . . .)
Ah! Bárbaro impostor, monstro sedento
De crimes, de ais, de lágrimas, de estragos,
Serena o frenesi, reprime as garras,
E a torrente de horrores, que derramas,
Para fundar o império dos tiranos,
Para deixar-lhe o feio, o duro exemplo
De oprimir seus iguais com férreo jugo.
Não profanes, sacrílego, não manches
Da eterna divindade o nome augusto!
Esse, de quem te ostentas tão válido,
É Deus de teu furor, Deus do teu gênio,
Deus criado por ti, Deus necessário
Aos tiranos da terra, aos que te imitam,
E àqueles, que não crêem que Deus existe.
(. . .)

que ajudou à sua prisão em 1797.
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Manuel Maria du Bocage nasceu à data indicada, faz 241 anos. Em Setúbal. Filho do jurista José Luís Barbosa e de Mariana Lestoff du Bocage. Aos 18 anos alistou-se na Marinha e, depois de feito o seu tirocínio, embarcou para Goa, na qualidade de oficial. Seguiu a bordo da nau "Nossa Senhora da Vida, Santo António e Madalena" - que nome comprido - em 1786.
Parece ter passado pelo Rio de Janeiro onde terá impressionado a sociedade aristocrática local.

Chegado à Índia passou mal com o clima altamente insalubre, com a vaidade e a estreiteza cultural que observou. Descontente retratou várias situações em alguns sonetos de carácter satírico, o que não ajudou à sua adaptação.

Acabou por desertar, após ter sido nomeado segundo tenente para Damão, partindo para outros locais como Índia, China e Macau, nomeadamente.

Regressado a Lisboa, em 1790, ingressa na boémia da cidade o que não o impediu de frequentar cafés onde se bebia a Revolução Francesa. Aí satirizou a sociedade portuguesa, estagnada, desbaratando, segundo dizem alguns, o seu imenso talento.

Publicou o seu primeiro tomo de rimas, em 1791, seguindo-se mais dois em 1798 e 1804, enquanto aderia à "Nova Arcádia".

Na sequência de uma rusga policial, 1797, foi preso por estar na posse de panfletos apologistas da revolução francesa e por por ter também um poema erótico e político - "Pavorosa Ilusão da Eternidade" também conhecido por "Epístola a Marília".

Acusado de crime de lesa-majestade, foi encarcerado no Limoeiro. Movidas influências, como hoje, claro, foi entregue à Inquisição, instituição que, entretanto já não possuía o poder discricionário anterior.

Em 1798, foi entregue por Pina Manique, Intendente Geral das polícias, ao Convento de S. Bento e, mais tarde, ao Hospício das Necessidades, para ser "REEDUCADO". Naquele ano foi finalmente libertado.

Em 1800, iniciou o seu trabalho de tradutor para a Tipografia Calcográfica do Arco do Cego, superiormente dirigida pelo cientista Padre José Mariano Veloso, recebendo12.800 réis mensais.

Com apenas 40 anos, depois de uma vida de angústias, prazeres, sofrimentos, paixões, devassa e desprezo pelo próprio ser físico, em 1805, no despontar do séc XIX, desistiu de viver, tendo a literatura portuguesa perdido um dos seus mais lídimos poetas - uma personalidade plural que, para muitas gerações, incarnou o símbolo da irreverência, da frontalidade, da luta contra o despotismo e de um humanismo integral e paradigmático.


1 Comentários:

At 20:40, Blogger Ivone Beatriz disse...

Que bom recordar este poeta, certamente o mais querido de todos quantos passaram pela leitura obrigatória de "Selecta"...

 

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