Terça-feira, Abril 04, 2006

Lisboa / neve ; Europa / cheias

A neve, num dia lindo de Sol, transmite-nos sempre uma sensação de bem-estar.



- Quando ela aparece onde deve estar - dir-me-ão.

Sim, é verdade, porque não estamos habituados a vê-la onde não costuma aparecer. E os locais onde ela irá cair, no futuro, poderão ser outros para além dos chamados "normais". Estas alterações não serão «... uma coisa instantânea mas da ordem de uma década... não estamos a falar de uma nova era glaciar mas de invernos mais extremos e rigorosos ... a interrupção da circulação oceânica no Atlântico poderá fazer baixar 4 ºC as temperaturas médias da Europa... » conforme afirmou Meric Srokosk do Instituto Britânico para a Investigação sobre o Ambiente.

Parece contraditória esta afirmação quando se fala no aumento da temperatura média global no nosso planeta como resultado dos milhões de toneladas de dióxido de carbono que são lançadas para a atmosfera diariamente nesta nossa grande aldeia. As moléculas de dióxido de carbono absorvem grande parte da radiação quente, os infra-vermelhos, que é reflectida e irradiada pela Terra não a deixando escapar para o espaço daí resultando um aumento da temperatura da atmosfera terrestre ( efeito de estufa ).

Mas é exactamente por isso que se prevê aquela alteração pois o aquecimento faz com que estejam a descongelar grandes glaciares ( água doce ) e parte das calotes polares ( água doce ), a aumentar a precipitação com o consequente engrossar dos caudais dos rios que vão desaguar ao mar alterando o nível de salinidade dos oceanos ( baixando ) e o fenómeno da circulação oceânica é disso muito dependente.

As temperaturas moderadas do noroeste europeu resultam das águas tépidas que banham as suas costas marítimas mas a corrente tépida que por lá passa perdeu 30% do seu caudal nos últimos 50 anos.

Este é um resultado de um estudo do Centro Nacional de Oceanografia da Universidade de Southampton, no Reino Unido, realizado por Harry Bryden.
Nele se concluiu que o sistema de correntes que percorre o Atlântico e garante as temperaturas moderadas acima referidas poderá estar a alterar-se. Aquele sistema é formado por uma parte "ascendente" quente, a Corrente do Golfo, prolongada pela deriva norte-atlântica e dois ramos "descendentes" que levam, para leste e para oeste, as suas águas arrefecidas até ao equador, onde aquecem novamente.
Embora a parte "ascendente" pareça continuar estável os investigadores notaram alterações importantes nos dois ramos "descendentes" do sistema. Para que a situação de bom funcionamento do conjunto se mantivesse seria necessário que não se verificassem aquelas alterações pois o calor que a corrente, na sua totalidade, transporta dá uma contribuição substancial ao clima moderado da Europa marítima e continental pelo que qualquer diminuição da circulação oceânica terá implicações profundas nas alterações climáticas na zona citada.

Os estudos efectuados utilizaram como suporte nas observações uma série de sensores posicionados ao nível do paralelo 25 que corta a Corrente do Golfo e as suas correntes descendentes.

Pode ler-se o artigo correspondente na revista Nature de Nov. de 2005.

A compreensão dos fenómenos que nos afectam directamente é importante. Sentimo-nos mais seguros quando percebemos que afinal não foi assim tão estranho termos visto neve a cair em Lisboa.

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