Onomástica Portuguesa

Andava eu à procura de um nome para a próxima filha quando encontrei no vocabulário antroponímico do dicionário Universal da Língua Portuguesa o nome Lira. Achei que tinha uma sonorida engraçada, era um nome assumidamente feminino assim como o instrumento e até encontrei uma pintura na internet de uma mulher Lira:

:
  • os nomes próprios “devem ser portugueses e admitidos pela onomástica portuguesa (catálogo de nomes próprios) ou adaptados gráfica e foneticamente à língua Portuguesa e não devem suscitar dúvidas acerca do sexo”.

A orientação pareceu-me clara e correcta. Decidi então procurar a onomástica portuguesa, mas só consegui encontrar uma lista incompleta de resultantes de despachos a consultas formuladas ao Director-Geral dos Registos e do Notariado.

Fiquei desapontado por não encontrar Lira nos vocábulos admitidos e por encontrar o mesmo nome na lista de vocábulos não admitidos, mas mais do que isso, fiquei com algumas dúvidas sobre estas duas listas e decidi fazer uma pequena investigação sobre o tema que resultou nos seguintes documentos:

  • Um de Ivo Castro da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em que diz que “não existe um repertório completo do nome português” e que “a atribuição do nome próprio aos cidadãos portugueses, fortemente enquadrada por disposições legais que, na sua redacção vigente, não são completamente satisfatórias e poderiam conduzir a situações aberrantes se não fossem, digamos assim, acolchoadas pelo modo como são postas em aplicação”;
  • Uma decisão do tribunal de Évora que se refere à lista dos registos como “…a pretexto da defesa incondicional de uma lista pretensamente taxativa de nomes da onomástica”;
  • Uma decisão do supremo tribunal de justiça que mostra que para conseguir colocar o nome “Júnior” como segundo nome foi necessário chegar ao supremo tribunal e demorou 5 anos;
  • Um blog que diz “Quem decide como a criança se deve chamar não são vocês, são outros. E esses outros, mais concretamente os funcionários da Conservatória do Registo Civil, são por vezes permissivos e por outras tiranos”;

Depois de uma pequena troca de emails com Ivo Castro também fiquei a saber que:

  • “… o problema é que LIRA, não é nome de mulher. É substantivo comum designando um objecto musical, é nome de terra e é nome de família. Mas não é conhecido nenhum caso (se o há em Portugal, não está à vista) em que seja nome próprio absoluto, isto é, primeiro nome próprio. A rigidez em aceitar quebras a esta situação tradicional é maior em relação ao primeiro nome próprio e menor em relação ao segundo (nome) …”

Achei bastante artificial a forma como é controlada a atribuição do nome a um recém nascido, mas acabei por desistir do nome Lira para evitar envolver-me num processo burocrático. Neste momento estou à espera do dicionário onomatológico de José Pedro Machado que parece ser a obra de referência para a onomástica portuguesa.

4 Comentários

  1. Maria João says:

    Estava à procura de alguém que se chame Mel, feminino claro, já que só é permitido para masculino…..
    mas Sol já é permitido para feminino e Zará é para feminino e masculino…não consigo entender.
    Se alguém me puder ajudar, o meu muito obrigado

  2. Orlando says:

    Boa Noite… Cheguei aqui por motivos de pesquisa a proposito de buscar referencias de um nome que quero colocar a minha filha e que por ordem da Senhora conservadora não foi aceite , o nome é Maryluz ou mesmo so Mariluz sem o Y , este nome tem apenas letras pertencentes ao nosso alfabeto nao se indica referencialmente a nada de nada e apenas nao posso por este nome a minha filha que é minha e não dessa gente que escolhe os nomes dos filhos dos outros … onde alem de todos e mesmo bastantes nomes completamente estupidos sem nexo e altamente incredulos por serem tao estapafurdios soa aceites tal como o caso de Magnólia , Marjolene , etc… nao esquecendo desta forma que Marisol é aceite e Mariluz tal como eu quero não é permitido … mas porquê ???? existe alguma explicação lógica para isto ??? quem difine a onomastica deve realmente ter um nome bastante engraçado e nao quer ser sozinho sei la assim do tipo … Manuel ou Maria Calhau …lololol

  3. borbulha says:

    Olá

    Tropecei neste blog depois de ter estado a ver a última versão dos nomes permitidos e Lira (enquanto nome feminino já consta). Também estranhei justamente apenas aceitarem Mel como masculino, lembrando-me da filhota do casal de celebridades. Estranho! De qualquer forma, a lista dá para rir um bom bocado. Há nomes verdadeiramente estapafúrdios e abrasileirados que são permitidos e outros que até pareciam lógicos negados. Não se percebe que critérios foram usados, mas enfim.

  4. andie says:

    Ao pesquisar sobre onomástica, encontrei este post seu já antigo, mas pertinente, pois estou grávida de 34 semanas, vou ter uma menina a quem quero dar o nome de Mel, nome este que não é admitido na lista, na sua forma feminina e é admitido na forma masculina.Ora acontece que Mel Pereira Monteiro,filhA de Tiago Monteiro e Diana Pereira, é menina e chama-se MEL.Não terei eu direita a chamar a minha filha com o mesmo nome?
    Isto não abre um precedente?
    Sabe-me indicar o que posso fazer?
    Agradeço a atenção que me possa dedicar.
    Obrigado!
    Andreia Meireles

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