Domingo, Abril 17, 2005

Judiciária e tribunais à deriva

Quinze mil páginas e duzentos arguidos dão a dimensão anunciada para o processo relacionado com o Futebol. Admitindo que o escrevinhador de tamanho dislate é altamente produtivo, capaz de completar em letra de forma 50 páginas por dia, e que faz isso pelo módico salário de mil euros por mês, ainda assim foi capaz de criar um buraco nas esgotadas finanças públicas 13600 euros. Se porventura o seu trabalho não foi isolado, mas envolveu pesquisas efectuadas por outros inspectores, com utilização de meios de transportes, estadias fora da área de residência etc, poderíamos cautelosamente multiplicar esta verba por dez. Mas isto para quê? Para desempenhar um papel suplectivo da Comissão Disciplinar da Federação Portuguesa de Futebol. Nunca tinha visto tamanho desvirtuamento da missão dos magistrados, feito e propalado às escâncaras, sem o mínimo senso de vergonha na cara, em clara posição de desafio a toda a classe política. Mas principalmente, rindo-se de todos nós, contribuintes de um Estado renitente em velar pelos interesses gerais, mas demasiado atento aos lobbies.
De agora em diante, por cada dia que passa e estes funcionários não sejam despedidos por justa causa, ou - pior do que isso - a concentração de recursos nesta área tome conta de mais magistrados e juízes, passamos e merecer colectivamente o epíteto de broncos, podemos começar a substituir os símbolos nacionais, retirar Portugal do mapa o substituir por Futobolândia, mandar a União Europeia às urtigas e substituí-la pela UEFA, sujeitar as leis da Assembleia da República à apreciação da Comissão de Arbitragem da FPF, avalizar a correcção dos actos eleitorias nacionais aos critérios das SAD's, etc, etc, etc...
Há porém outro caminho. Deixar os assuntos corporativos à responsabilidade das corporações. Se dentro delas se virem a instalar processos irregulares, serão elas as únicas sacrificadas. Esta é, porventura, a razão porque a participação do público nos estádios se tem mostrado em declínio, o que não acontece em todos os países. E canalizar os recursos da Administração Pública para as questões que ultrapassem todas as corporações. Da legitimidade dos interesses particulares não se infere necessariamente a subordinação do interesse geral aos interesses particulares. E se há políticos que teimam em subordinar sistematicamente a sua acção aos interesses dos lobies, deveríam, francamente, abster-se de promover-se em eleições que são para todos, e retirar a representatividade dos seus mandatos a partir do restrito âmbito social em que pensam desenvolver essas acções.

4 Comentários:

At 14:00, Blogger espumante disse...

Eu concordo... se me ativer à pureza do teu raciocínio. A questão é que a Comissão Disciplinar da Liga (não sei se esta é a designação correcta)está, ela própria, inquinada e ferida por atropelos que relevam de amizades, compadrios e, até, chantagens entre os seus prosélitos. Portanto, de duas uma: - ou deixamos os assuntos à corporação e continuamos a navegar nos seus vícios ou aceitamos a investigação tal qual o faríamos em relação a qualquer outra. Não faria sentido, por exemplo, que o caso da Casa Pia estivesse entegue ao arbítrio da Provedoria, Direcção e outros departamentos...bem podiam os putos esprar sentados. Provavelmente no colo de um director qualquer.
A menos que eu tenha interpretdo mal o post...

 
At 15:36, Blogger Lúcio Ferrão disse...

Com um processo desta dimensão, acho que o melhor é chamarmos Baltazar Garzon para o resolver :)

 
At 18:53, Blogger António Chaves Ferrão disse...

Espumante
Obrigado pela tua visita. Entre os dois processos há uma distância não menosprezável. Enquanto cidadãos que se respeitam a si próprios, não podemos tolerar que dinheiros públicos sejam usados para sustentar práticas pedófilas. Mas nada me confrange que presidentes de clubes desportivos paguem serviços sexuais a árbitros. Isso é do estrito fôro dos adeptos do futebol. Apenas enquanto adepto posso desejar que tal não aconteça, para bem da "verdade futobolística". A não ser que... Pois é, a não ser que os próprios clubes andem a viver, de uma forma ou de outra do erário público. Mas pagar a funcionários públicos para tentar repôr essa verdade é prolongar o que está mal, não corrigir.

 
At 18:55, Blogger António Chaves Ferrão disse...

Lúcio
É melhor começarmos nós próprios a procurar tomar conta dos nossos destinos, pois, como diz a canção:
Já não há heróis.

 

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