Alastair Crooke – A aflição de Netaniahu

António Ferrão, 2017-09-19


O primeiro-ministro Netaniahu está assustado com a derrota dos radicais apoiados conjuntamente pela Arábia Saudita e por Israel na Síria e ameaça agora desencadear um ataque aéreo de grande envergadura, segundo descreve o ex-diplomata britânico Alastair Crooke.


Uma delegação israelita de topo visitou Washington há uma semana. Logo a seguir, o primeiro-ministro israelita Benjamim Netaniahu interrompeu as férias de Verão do presidente Putin em Sochi onde, segundo fontes oficiais do governo israelita (citadas pelo Jerusalem Post), Netaniahu teria ameaçado bombardear o palácio presidencial em Damasco e torpedear ou anular o processo de cessar-fogo de Astana, caso o Irão continue a alargar a sua influência na Síria.

“Segundo testemunhos da parte pública das conversações, o primeiro-ministro israelita apresentou-se demasiado irritado, por vezes até em pânico. Descreveu ao presidente russo um possível apocalipse, caso não sejam envidados esforços para conter o Irão que, segundo Netaniahu, está disposto a destruir Israel”

escreveu o Pravda.

Que se passa aqui? Seja rigorosa ou não a citação do Pravda, ainda que haja confirmações por funcionários israelitas idóneos, aquilo que está claro é que (por fontes de Israel) tanto em Washington como em Sochi as palavras de Israel foram escutadas, mas em troca Israel conseguiu nada. Israel ficou isolado. É certo que Netaniahu procurou garantias sobre o papel reservado ao Irão na Síria, ao invés de pedir a Lua como a expulsão dos iranianos. Mas como poderia, em boa realidade, Washington ou Moscovo oferecer tais garantias?

Demasiado tarde, Israel deu-se conta de que na Síria apoiou o lado errado – e perdeu. Não está em condições de exigir. Não obterá dos americanos um compromomisso quanto à manutenção de uma zona tampão para além da linha do armistício definida para o Golã, tampouco sobre o encerramento da fronteira Iraque-Síria ou o que quer que seja supervisionado por iniciativa de Israel.

A questão Síria é importante, mas se nos limitarmos a ela perdemos de vista a floresta a favor da árvore. Em 2006, a invasão do Líbano por Israel, (apoiada pelos EUA, Arábia Saudita e até por sectores do Líbano) foi um fiasco. Simbolicamente e pela primeira vez no Médio Oriente, um exército sofisticado e fortemente armado de uma nação ocidental, em suma, falhou. O que torna esta derrota mais chocante e dolorosa não foi só o facto do exército ter sido militarmente suplantado, foi ainda o de ter perdido a guerra electrónica e a dos serviços de espionagem – algo em que o Ocidente se considerava imbatível.

A queda depois da derrota

A derrota surpreendeu e atemorizou o Ocidente, mas também o Golfo Pérsico. Contra todas as apostas, um pequeno movimento armado revolucionário barrou a ofensiva de Israel, foi capaz de defender o seu território e venceu. Este precedente foi largamente percebido como um ponto de viragem no balanço de forças da região. Os autocratas feudais do Golfo Pérsico tremeram.

A reacção não se fez esperar. O Hezbolá foi colocado em quarentena, tanto quanto o levantamento de sanções pelos Estados Unidos da América poderiam alcançar. Em 2007, a guerra da Síria foi anunciada como uma punição pelos acontecimentos de 2006 – se bem que a sua implementação só em 2011 viria a assumir proporções exacerbadas.

Contra o Hezbolá, Israel lançou a plenitude da sua força militar, embora venha agora dizer o contrário, que poderia ter feito melhor; mas contra a Síria, os EUA, a Europa e os estados do Golfo (com Israel na sombra) lançaram todo o esgoto da cozinha: os radicais sunitas, al-Qaeda, o Estado Islâmico (sim); acresce fornecimento de armas, subornos, sanções e a campanha de imprensa de difusão mais ampla e intensa já observada. Porém a Síria – com os seus aliados – parece prevalecer; defendeu o país contra implausíveis expectativas.

Sejamos claros. Se em 2006 ocorreu uma inflexão, a capacidade da Síria manter o seu território é uma reviravolta histórica de amplitude muito maior. Deve ter-se em consideração que a Arábia Saudita (juntamente com a Grã-Bretanha e os Estados Unidos da América) tomaram a iniciativa de impulsionar os radicais sunitas. Resultado? Os estados do Golfo e a Arábia Saudita em especial saíram enfraquecidos. O último confiou na força do wahabismo desde a sua fundação como reino: mas o wahabismo no Líbano, na Síria e no Iraque ficou profundamente desacreditado – mesmo entre os muçulmanos sunitas. Pode muito bem estar em vias de ser também derrotado no Iémen. Tal derrota irá alterar a imagem do Islão Sunita.

No Conselho de Cooperação do Golfo, organização fundada em 1981 pelos chefes das tribos do Golfo com o único objectivo de perpetuar a forma hereditária de poder na Península, já assistimos a uma disputa aberta, numa indisfarçável luta instestina, amarga e agonizante. O sistema Árabe, uma reminiscência das antigas estruturas otomanas com o beneplácito das potências vitoriosas da I Guerra Mundial, Grã-Bretanha e França, parece ter perdido o fôlego momentâneo de 2013 (com o golpe no Egipto) e retomado o seu inexorável declínio.

O lado perdedor

O alarme de Netaniahu, a confirmar-se, pode muito bem ser o reflexo de uma mudança significativa na relação de forças na região. Por muito tempo, Israel apoiou o lado perdedor – e agora descobre que foi deixado isolado e receoso até dos seus apaniguados mais seguros, os jordanos e os curdos. A nova estratégia correctiva de Tel Aviv parece apostada em atrair o Iraque para uma aliança com Israel, os Estados Unidos e a Arábia Saudita contra o Irão.

Se assim fôr, a cartada de Israel e da Arábia Saudita poderá ter chegado demasiado tarde; subestimaram o ódio visceral gerado entre iraquianos de todos os quadrantes pelos actos bárbaros do Estado Islâmico. Poucos deram crédito à narrativa ocidental que atribui o aparecimento do Estado Islâmico, magnificamente armado e financiado, a um alegado sectarismo do ex-primeiro-ministro iraquiano al-Maliki. Não! Por detrás de um movimento apetrechado desta maneira, há-de encontrar-se necessariamente a força de um estado.

Num artigo laudatório, Daniel Levy defende que os israelitas em geral não corroboram o que acabei de dizer. Vejamos a contestação:

A longevidade de Netaniahu no poder, as suas vitórias eleitorais consecutivas e a sua capacidade em segurar coligações de governo devem-se à ressonância que a sua mensagem encontra junto do grande público. É um argumento de peso que Netaniahu tenha conduzido o Estado de Israel à melhor situação da sua história, representando hoje uma força global crescente… florescente no campo diplomático. Netaniahu invalidou aquilo a que chamou de ‘falsa inevitabilidade’, que pretendia que Israel, na ausência de um entendimento com os palestinianos, acabaria isolado, enfraquecido e à beira de uma catástrofe diplomática.

Muito difícil de ser aceite pelos seus detractores políticos é o eco que a afirmação de Netaniahu encontra no público, pois reflecte algo consistente e que deslocou o centro de gravidade político do país acentuadamente para a Direita. É uma posição que, a verificar-se correcta e replicável no tempo, deixará um legado que perdurará muito para além do posto de primeiro-ministro de Netaniahu ou de qualquer acusação de que ele venha a ser alvo.

Netaniahu assevera que Israel não está condenado a ganhar tempo no conflito com os palestinianos, limitando-se a fortalecer as suas posições num compromisso futuro a que não pode escapar. Não! Israel aspira a algo diferente: uma vitória final, com a derrota completa e definitiva dos palestinianos, dos seus anseios colectivos e nacionais.

Persistente e inequívocamente, por mais de uma década como primeiro-ministro, Netaniahu rejeitou todos os planos ou medidas práticas conducentes, quanto mais não fosse, a abrir um processo contemplando aspirações palestinianas. Netaniahu está interessado somente em perpetuar e ampliar o conflito, não em geri-lo, quanto mais resolvê-lo… A mensagem é clara e é a seguinte: não haverá Estado Palestiniano, não haverá West Bank nem Jerusalém Oriental pela simples razão de que aquilo que existe é o Grande Israel.

Negação do Estado Palestiniano

Levi prossegue:

Esta abordagem revoga pressupostos que orientaram os esforços de paz e as iniciativas políticas norte-americanas por mais de um quarto de século, a saber: que, contra o futuro abandono dos colonatos por Israel, não restaria alternativa que não passasse pela aceitação de um estado palestiniano independente e soberano, com as fronteiras suficientemente próximas das que vigoravam em 1967. A recusa obstinada em aceitar tal perspectiva, foi dito, iria resultar na destruição da imagem de Israel como democracia. Para com os aliados, de quem Israel depende e que estão envolvidos nos esforços de paz, esta recusa seria insustentável.

Para com os países que são bastiões do seu apoio internacional, Netaniahu dispôs-se a um jogo arriscado. Face a um Israel cada vez menos liberal e mais etno-nacionalista, sería ou não possível manter o apoio dos judeus norte-americanos em número suficiente, garantindo dentro dos Estados Unidos da América a continuidade das tradicionais relações de privilégio para com Israel? Netaniahu apostou no Sim! e acertou.

Eis outra questão interessante que Levy referiu:

Foi então que os acontecimentos tomaram um rumo favorável a Netaniahu, com a subida ao poder nos Estados Unidos da América e partes da Europa de Leste, acompanhada de alargamento da influência por todo o Ocidente Europeu, de tendências etno-nacionalistas que lhe são tão caras; tendências apostadas em substituir democracias liberais por não liberais. Não se deve subestimar a importância de Netaniahu como vanguarda ideológica eficaz desta nova tendência.

Sem rodeios, o ex-embaixador dos Estados Unidos da América e conceituado analista político, Chas Freeman, afirmou recentemente:

O objectivo central da política dos Estados Unidos da América no Médio-Oriente tem sido, desde há muito tempo, o de granjear a aceitação regional para os colonatos judeus na Palestina.

Por outras palavras, para os Estados Unidos da América, a sua política – e todas as suas acções – estão subordinadas ao critério estar ou não estar. Entenda-se bem: estar com Israel, ou não estar com Israel.

Terreno perdido por Israel

O nó górdio é que a região acabou de sofrer uma evolução decisiva para o campo do não estar. Haverá muito mais que os Estados Unidos da América possam fazer? Israel encontra-se agora basicamente sozinho, contando como aliado na região apenas com uma Arábia Saudita enfraquecida, incapaz de camuflar os limites do seu campo de manobra.

O apelo que os Estados Unidos da América fizeram aos países árabes para que reforcem os laços com o primeiro-ministro iraquiano Haider al-Abadi parece fora do contexto. O Irão não está à procura de uma guerra com Israel, como foi reconhecido até por alguns analistas israelitas. É verdade que o presidente sírio foi claro ao afirmar que tenciona recuperar toda a Síria – e toda a Síria inclui os Montes Golã ocupados por Israel; tambem é verdade que esta semana Assã Nasralá incentivou o governo libanês a preparar um plano conducente à decisão soberana de libertar as quintas Chebá e os montes Kfarshoba da ocupação israelita.

Comentadores políticos israelitas já começaram a replicar o que está escrito nas paredes – é melhor ceder território unilateralmente que pôr em risco a vida de centenas de soldados numa tentativa fútil de retê-lo. Isto, porém, não se enquadra no estilo “Não recuaremos um centímetro!” do primeiro-ministro em declarações recentes.

Será que o etno-nacionalismo irá garantir a Israel uma nova base de apoio? Desde logo, a caracterização de Israel como democracia iliberal é um eufemismo para o que não passa de regime de discriminação racial, feito para despojar os palestinianos dos seus direitos políticos. E na mesma medida em que o cisma do Ocidente se vai agravando, cada um procurando retirar legitimidade ao outro com acusações mútuas de intolerância, racismo ou nazismo, mais se torna clara a vontade dos verdadeiros nacionalistas se demarcarem dos regimes extremistas.

Daniel Levy salienta que o dirigente da Direita, Richard Spencer, descreve o seu próprio movimento como Sionismo Branco. Serão estes os termos adequados para Israel angariar apoio? Há quanto tempo andam os globalistas a acusar Direita de pretender instaurar o mesmo tipo de sociedade nos Estados Unidos da América, com os mexicanos e os pretos no papel dos palestinianos?

Nacionalismo étnico

A viragem cada vez mais nítida do Médio Oriente para o lado do não estar possui uma explicação ainda mais simples que o etno-nacionalismo de Netaniahu. Chama-se colonialismo ocidental. O primeiro assalto da estratégia de Chas Freeman para colocar o Médio Oriente no campo do estar com Israel foi desferido com a operação Choque e Pavor no Iraque. Hoje, o Iraque está aliado ao Irão e as milícias populares do país estão em vias de se transformarem numa força de combate com uma mobilização sem precedentes. Também o Hezbolá deixou de ser uma força simplesmente libanesa e é já uma força militar a ter em conta a nível regional.

O terceiro assalto desenvolveu-se na Síria. Hoje, a Síria está aliada à Rússia, ao Irão, ao Hezbolá e ao Iraque. Que nos reservará o próximo assalto desta guerra entre os campos do estar e do não estar?

Ao não ceder aos que apelidou sobranceiramente de profetas da desgraça – que previram que Israel acabaria isolado, enfraquecido, abandonado e à beira de uma catástrofe diplomática – Netaniahu conseguiu o quê? Nestas duas últimas semanas, tomando alguma desmobilização dos palestinianos como uma vitória sua, descobriu que afinal se encontra sozinho dentro do seu almejado Novo Médio Oriente. Ironicamente, na hora em que celebrava o seu triunfo.

É provável que o Pravda tenha razão e que Netaniahu se tenha apresentado mesmo assustado, quando rumou precipitadamente para a cimeira de Sochi.

Artigo original: The Reasons for Netanyahu’s Panic, 1º de Setembro de 2017
Tradução de António Ferrão

Isa & Jorge Ferrão – Discretamente

António Ferrão, 2017-07-23

Hora de ir trabalhar…
A caminho da grande cidade, o trânsito consome parte da boa disposição diária. Uma discreta evasão parece ser o antídoto para o esgotamento.

Nova Iorque 11 Setembro 2001 / Londres 14 Junho 2017

António Ferrão, 2017-06-16

Para quem se interessa pela resistência de materiais, pelo cálculo de estruturas, pela supressão gradual das liberdades individuais ou simplesmente aprecia um bom enigma, deixo este dos tempos modernos.


Londres 2017 – 24 horas de inferno


Edifício de 24 andares construído em 1974
London fire June 14, 2017


London fire June 14, 2017


London fire June 14, 2017


Alvorada do dia 14
London fire June 14, 2017


Remanescentes do edifício
London fire June 14, 2017


London fire June 14, 2017



Nova Iorque 2001 – 90 minutos de incêncio localizado


Edifícios de 110 andares construidos em 1970
London fire June 14, 2017


Pode ver-se um vulto encostado a uma das colunas na fenda da fachada do edifício. Nesta fotografia, a posição é assinalada por uma bordadura rectangular vermelha. Trata-se de Edna Cintron, minutos antes do colapso da torre.
London fire June 14, 2017


Torres reduzidas a pó
London fire June 14, 2017


Escombros do edifício
London fire June 14, 2017

Aqueles que passam por nós,

António Ferrão, 2017-03-23

não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.

Antoine de Saint-Exupéry

Wanda

Temperatura típica em Barcelos

António Ferrão, 2016-12-17

Temperatura típica em Barcelos
(Clique sobre a imagem para aumentar)



Os dados mensais de temperatura estão amplamente disseminados na internet tanto na forma tabular como gráfica. A título de exemplo, eis dois sítios que referem a temperatura média mensal em Barcelos:

Neste exercício, que abrange as tabelas de temperatura do SNIRH, a interpolação trigonométrica foi preferida à interpolação linear:
Temperatura típica em Portugal (pdf)

Aleppo, Síria, 6 de Dezembro de 2016

António Ferrão, 2016-12-07

Onde a guerra por encomenda promovida pela OTAN sofreu o primeiro revés. A Síria continua soberana.

Germany denies preparing to rescue Deutsche Bank

António Ferrão, 2016-09-30

http://www.reuters.com/article/us-germany-banks-idUSKCN11Y1FH

Isa e Jorge – Encontro

António Ferrão, 2016-05-14

Marco Capitão Ferreira – Intervenção no Instituto de Direito Económico Financeiro e Fiscal

António Ferrão, 2016-04-20

Christopher Black – Papéis do Panamá

António Ferrão, 2016-04-11

No seu último romance intitulado Numero Zero, Humberto Eco denunciou a realidade simultaneamente manipuladora e manipulada da imprensa ocidental, colocando na voz de um redactor editorial as palavras: “Vamos limitar-nos a divulgar suspeitas. Se alguém for mencionado em negócios condenáveis, ainda que não saibamos do que se trata, podemos pregar-lhe um susto. É quanto basta para os nossos intentos. Mais tarde, passaremos à cobrança, o nosso jornal poderá ganhar quando o momento for propício.

E é exactamente isto que está a acontecer com o aparecimento em todos os jornais ocidentais, no passado domingo dia 3 de Abril, da história a que se chamou sinteticamente “Papéis do Panamá”. Esta história, atribuída a uma obscura Coligação Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ) tem todas as marcas distintivas de uma operação dos serviços secretos visando atingir selectivamente determinados governos. O alvo principal, como não poderia deixar de ser, é o Presidente Putin, para enfraquecer a sua posição nas próximas eleições e, mais tarde, retratá-lo como um criminoso no ocidente.

Mas entre os alvos estão também directores da Federação Internacional das Associações de Futebol (FIFA), dando continuidade ao assédio que o governo dos Estados Unidos da América (EUA) tem feito para impedir a participação da Rússia no próximo campeonato mundial; está Leonel Messi, um dos melhores jogadores do mundo, possivelmente como retaliação pela recusa [do jogador] em aceder ao convite dirigido por Barak Obama aquando da visita à Argentina, para que se encontrasse com as suas filhas; o de Jakie Chan, pelo apoio ao Partido Comunista Chinês; além de várias outras pessoas inscritas na lista negra dos EUA por se relacionarem com a Coreia do Norte, o Irão, o Hezbolá, a Síria ou outras entidades que os EUA consideram inimigas.

Inclui também o Presidente Porochenko da Ucrânia, porventura como sinal de que estão fartos dele; o primeiro-ministro da Islândia, que acabou por demitir-se, como castigo por ter mandado prender alguns banqueiros, confiscado os respectivos bancos e compensado parcialmente as perdas sofridas pelos cidadãos na crise financeira de 2008; Hozni Mubarak, que acusou os EUA de organizarem no Egipto uma sublevação contra ele; Kadafi, assassinado na Líbia; e Xi Jiping, o Presidente da China. Notoriamente ausentes estão os nomes dos altos dignatários dos EUA ou da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), se bem que o pai de David Cameron aí venha mencionado, como puxão de orelhas ao primeiro-ministro britânico por ter autorizado o referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia, pondo em risco a influência dos EUA na Europa.

Basicamente, descontando os inimigos declarados, trata-se de pessoas que, por um ou outro motivo, os EUA passaram a considerar críticos da sua política, tendo perdido o estatuto de parceiros fiáveis.

A escolha do Presidente Putin como alvo preferencial, apesar do seu nome não constar nos documentos, e também a escolha do momento acordado para a difusão do relatório levantam imediatamente reservas quanto ao valor desta divulgação no âmbito restrito do direito do público à informação, distanciado de motivações políticas do governo dos EUA, como a desestabilização de determinados governos estrangeiros. Menos reservas levanta o alinhamento desta operação com os objectivos amplamente propagandeados pelo governo dos EUA. A ocultação do dinheiro pelos ricos sempre foi uma boa maneira de provocar a ira do público e estimular distúrbios para desestabilizar governos, como os que acabámos de assistir na Islândia. Pouco interessa que a história seja verdadeira ou não. Uma parte da informação poderá ser, mas o quadro legal opaco em que se move a firma de onde os documentos foram sonegados diz muito quanto ao apego à verdade. Que importa, se conta só o que é mostrado ao público?

Só conhecendo a natureza da fonte, o ICIJ, o sentido de toda esta história começa a desvendar-se. Ficaremos mais esclarecidos quando soubermos quem é a entidade responsável pela publicação das informações, a quem está associada e quem a patrocina.

A chave encontra-se na composição do Conselho Consultivo e do Conselho de Administração da sua casa-mãe, o Centre For Public Integrity (CFPI) e ainda na lista dos respectivos membros fundadores. No seu sítio da internet, o ICIJ reclama-se do estatuto de organização sem fins lucrativos. Tecnicamente isto pode estar certo, mas esqueceram-se de informar que da actividade desta organização resultam proventos para as pessoas que os financiam e que controlam as suas operações. Entre os membros fundadores da CPPI estão o Democracy Fund, a Carnegie Foundation, a Ford Foundation, a MacArthur Foundation, a Open Society de George Soros, o Rockefeller Brothers Fund, o Rockefeller Family Fund o muitos outros de semelhante linhagem. Entre os contribuintes individuais encontramos pessoas como Paul Volcker, ex-presidente da Reserva Federal, e muitos outros da poderosa elite corporativa e financeira dos EUA.

No Conselho Consultivo encontramos pesoas como Geoffrey Cowan, que foi nomeado director da Voice of America pelo Presidente Clinton em 1994 e foi director associado da United States Information Agency. Hoje é o director da Anneberg Foundation, que hospeda presidentes e ex-presidentes reformados dos EUA incluindo Obama nas suas propriedades na Califórnia, apelidadas de Camp David do Oeste. É também um membro do Conselho para as Relações Internacionais, um grupo de reflexão onde pontificam numerosos directores da Central Inteligence Agency (CIA), muitos ex-Secretários de Estado (Ministros dos Negócios Estrangeiros) dos EUA e personalidades ligadas aos órgãos de comunicação que têm chamado a si a responsabilidade de promover a globalização, a liberalização do comércio e outras orientações de política internacional definidas pelos magnatas mais poderosos dos EUA.

No Conselho Consultivo sentam-se também Hodding Carter III, ex-secretário de estado adjunto no mandato do Presidente Carter e depois jornalista dos meios de informação ocidentais mais importantes incluindo a BBC, a ABC, a CBC, a CNN, a NBC, a PBS e o Wall Street Journal, ocupando actualmente o cargo de Presidente da Knight Foundation. Lá encontramos também Edith Everett, presidente da Gruntal and Company, um dos maiores e mais antigos bancos de investimento da cidade de Nova Iorque; Hebert Hanif, advogado de altos responsáveis do Estado, Kathleen Hill Jamieson, reitora do Annenberg School for Communication, especialista na utilização da imprensa para fins políticos incluindo modos de influenciar campanhas eleitorais; e Sonia Jarvis, advogada que já trabalhou com Clinton.

Ainda no Conselho Consultivo estão Harold Hongji Koh, ex-conselheiro jurídico do Departamento de Estado de 2009 a 2013, nomeado pelo Presidente Obama, conhecido por ter defendido em 2010 a legalidade do uso de aviões não-tripulados para efectuar assassinatos; Charles Ogletree, professor de Direito na Universidade de Harvard e amigo próximo de Obama; Allen Pusey, editor e redactor da American Bar Association Journal; Ben Sherwood, co-presidente da Disney Media, ex-presidente da ABC News e também membro do Conselho para as Relações Externas; Paul Volcker, que não é apenas um financiador individual mas também membro do Conselho. Além do cargo de presidente da Reserva Federal entre 1979 e 1987, Volcker foi presidente do Conselho Consultivo para a Economia entre 2009 e 2011, designado por Obama e ainda foi presidente da Trilateral Comission, tendo trabalhado para o Chase Manhattan Bank, uma posição muito próxima da família Rockefeller.

Para terminar, estão lá Harold Williams, ex-presidente da Comissão dos Valores Mobiliários (1977-1981) e membro dos conselhos de administração de dezenas de empresas, William Julius Wilson, professor de Sociologia da Universidade de Harvard e, por último mas não menos importante, Christiane Amanpour, figura cimeira da propaganda bélica da CNN, que ainda há poucos dias encenou uma farsa televisiva ao fingir desconhecer por completo o assunto dos Papéis do Panamá, em entrevista que fez a um jornalista da ICIJ. Na realidade, estava a entrevistar um funcionário da sua própria organização, mas não informou disso os telespectadores. Por alguma razão o seu nome não aparece no sítio da internet da CFPI, mas sim aparece no último Relatório Anual de Contas (2014-2015) da organização.

No Conselho de Administração, por seu lado, podemos encontrar Peter Beale, antigo chefe da CNN.com, antigo funcionário da Reuters, editor do London Times, director editorial da Microsoft; mas também Arianna Huffington, presidente da Post Media; e Bill Kovach, jornalista do New York Times, para mencionar apenas alguns nomes bem conhecidos do situacionismo dos EUA.

Eis os factos. Não se trata, portanto, de um grupo de investigadores independentes dedicados à causa da verdade e à defesa da democracia. Trata-se de um grupo de propagandistas que, disfarçados de jornalistas, prosseguem a arte do engano às ordens do governo e dos serviços secretos dos EUA. Não é de espantar que, no Relatório Anual, a aprovação de Obama à actividade da organização seja citada. Em Janeiro, este mesmo grupo lançou um ataque ao governo da China através de uma outra “fuga” de documentos financeiros referindo dirigentes chineses, algo que agora volta a acontecer, sem dúvida como parte do trampolim para a China.

Eis a informação que a CNN, The Guardian, a BBC, a CBC, o New York Times e toda a restante imprensa não forneceu, mas que é relevante para se avaliar o grau de isenção do promotores desta difusão por todo o mundo. A missão da imprensa ocidental não é a de informar o público, ou “ensinar as pessoas a pensar“, como disse Humberto Eco; é a de manipular as ideias e as acções. A omissão da informação é também uma mentira e, nas palavras de outro grande escritor, José Saramago, também é usada “como arma, como guarda avançada dos tanque e dos canhões, sobre as ruínas, sobre os mortos, sobre as míseras e sempre frustradas esperanças da humanidade“. É tempo destas pessoas serem conhecidas pelo que fazem e chamadas à responsabilidade pela forma como estão a enganar os que dizem servir. Pois haverá crime maior que o de enganar o povo?

The Panama Papers: The People Deceived, Christopher Black, New Eastern Outlook 09/ABR/2016

(Traduzido do original em inglês por António Ferrão)