Dinheiros públicos, vícios privados

António Ferrão, 2012-12-03

A fórmula esquecida

José Ferrão, 2012-11-17

Não percebo como é que esta fórmula tão útil, simples e pedagógica nunca foi incluída nos programas de Matemática do básico.
Trata-se da fórmula para calcular a área de um triângulo qualquer, baseada apenas no comprimento dos lados, que é a medida mais fácil de obter na prática:

AxA = s (s-a) (s-b) (s-c)
sendo A a área do triângulo, a, b e c o comprimento dos lados e s o semi-perímetro, ou seja
s = (a + b + c) /2

A primeira coisa que nos diz a fórmula, é logo de entrada que nenhum lado pode ultrapassar a soma dos outros dois: se assim fosse, esse lado seria maior do que o semi-perímetro, obrigando o AxA a ser negativo.
Outro aspecto muito interessante é que a fórmula ignora completamente os ângulos, conseguindo assim dissociar a aritmética da trigonometria, o que permite dar muito mais flexibilidade à programação da disciplina.
Mas o aspecto que eu considero mais interessante, é a forma como apresenta a construção das unidades de medida, associando directamente a área ao quadrado da medida linear, numa altura em que os estudantes se encontram precisamente no estádio da compreensão da construção das unidades de medida compostas a partir das unidades de medida fundamentais.

A república ao contrário

José Ferrão, 2012-10-05

5 de Outubro de 2012
Depois da comemoração da república passar à clandestinidade, saindo dos Paços do Concelho, a bandeira foi hasteada com o bresão de cabeça para baixo

O quadrado redondo

José Ferrão, 2012-08-26

O problema de dividir uma área quadrada em várias áreas de igual superfície, tem uma solução trivial que consiste em dividir os lados num número igual de partes inteiras, obtendo-se assim vários quadrados mais pequenos, num total que é igual ao quadrado do número de partes em que se dividiram os lados.

Obtém-se deste modo um, quatro, nove ou dezasseis quadrados mais pequenos, conforme se encontra ilustrado na figura.

Não é tão evidente a solução quando se trata de dividir uma área circular num número de partes que tenham superfícies idênticas.

Na figura em anexo encontra-se uma solução muito simples, que permite resolver o mesmo problema para o caso da área circular.

A figura não se encontra bem à escala, mas a ideia é que cada círculo tenha o diâmetro do anterior somado ao diâmetro do mais pequeno. Assim, os diâmetros serão respectivamente, um, dois, três e quatro unidades do mesmo modo que os lados dos quadrados anteriores eram um, dois, três e quatro.

Se assim for, então as áreas de cada um dos círculos serão, respectivamente,
A₁ = π x R² = π x (D/2)² = π x D² /4
A₂ = π x (2R)² = π x (2D/2²) = π x D² = 4 x A₁
A₃ = π x (3R)² = π x (3D/2)² = π x (9D²) /4 = 9 x A₁
A₄ = π x (4R)² = π x (4D/2)² = π x (2D)² = π x 4 D² = 16 x A₁

Como a primeira coroa circular se encontra dividida em três partes iguais, e o círculo que lhe corresponde possui uma área total que é igual a quatro círculos interiores, logo cada uma das três secções circulares tem área igual ao primeiro círculo.

Pelo mesmo raciocínio concluímos que o terceiro círculo se encontra dividido em 4 + 5 = 9 áreas idênticas, e o último círculo fica com 9 + 7 = 16 áreas idênticas.

Corrigi a descrição dos diâmetros, em 28Ago2012.

Gregory Palast – Os quatro passos da maldição

António Ferrão, 2012-03-13

Foi uma cena digna de Le Carré: o agente secreto chegou do frio e, após horas de relato, esvaziou a memória dos horrores cometidos em nome de uma ideologia apodrecida.

Mas o peixe era bem mais graúdo que os espiões usuais da Guerra Fria. O antigo homem do aparatish não foi outro senão Joseph Stiglitz, ex-economista principal do Banco Mundial. A nova ordem mundial foi a teoria económica em que medrou.

Estava em Washington para o grande conciliábulo do Banco Mundial com o Fundo Monetário Internacional. Mas agora, em vez de se sentar ao lado de ministros e banqueiros, esteve no outro lado do cordão policial. O Banco Mundial despediu Stiglitz há dois anos. Não lhe foi permitida uma reforma sossegada: foi excumungado por ter expresso leves divergências com o estilo de globalização do Banco Mundial.

Aqui em Washington, entrevistámos Stiglitz em exclusivo para The Observer e para a Newsweek sobre os os trabalhos preparatórios das reuniões do FMI, o Banco Mundial e do proprietário de 51% dos bancos norte-americanos, o Tesouro dos EUA.

Também em Washington, mas de fontes anónimas (não Stiglitz), conseguimos obter preciosos documentos com as marcas ‘confidencial’ e ‘secreto’.

Stiglitz ajudou-nos a traduzir um desses documentos, intitulado ‘estratégia de assistência ao país’. Havia uma estratégia de assistência para cada nação pobre, projectada, segundo afirma o Banco Mundial, após minuciosas investigações empreendidas no terreno.

Porém, segundo o insider Stiglitz, a ‘investigação’ do Banco Mundial pouco mais era que uma visita aos salões dos hotéis de cinco estrelas. Terminavam numa reunião com o ministro das finanças do país que pedia o empréstimo, a quem era apresentado um ‘acordo de ajustamento’ para assinatura ‘voluntária’.

Cada nação era analisada, afirmou Stiglitz. Depois o Banco apresentava sempre o mesmo programa em quatro etapas.

O primeiro passo era a privatização. Stiglitz comentou que, em vez objectarem contra a alienação das empresas do Estado, alguns políticos – usando os bons ofícios do Banco Mundial para silenciar os críticos – alegremente entregavam as empresas de água e de electricidade dos seus países. ‘Conseguiria ver o brilhosinho nos olhos’, quando eram mostradas as comissões por abate de alguns milhares de milhões do preço de venda.

O governo dos EUA sabia disso, acusou Stiglitz, pelo menos no caso da maior de todas as privatizações, que aconteceu em 1995 na Rússia. A posição do Tesouro dos EUA na altura foi: “Óptimo, foi para isso que quisémos a re-eleição de Yeltsin. Pouco nos importa que tenham sido umas eleições fraudulentas.”

Não é fácil descartar Stiglitz com um vulgar conspirador. O homem esteve por dentro do jogo – foi membro do gabinete de Bill Clinton e chefe do conselho dos consultores económicos da Presidência.

O que mais enfurece Stiglitz é que os oligarcas russos apoiados por Washington tenham expoliado os bens do país, reduzindo o produto nacional bruto a metade.

Após a privatização, o Segundo Passo é a liberalização do mercado de capitais. Teoricamente, isto abre a possibilidade aos capitais investidos fluirem para dentro ou para fora do país. Infelizmente, como o demonstram os casos da Indonésia e do Brasil, os capitais fluem apenas para fora.

A esta etapa, Stiglitz chama a ‘reciclagem do dinheiro quente’. O dinheiro entra para as actividades especulativas e foge à primeira brisa de perturbação. As reservas do país podem secar em questão de dias.

Quando os capitais fogem, o FMI propõe, como forma de os fazer regressar, o aumento das taxas de juro das obrigações do Tesouro do país para valores na ordem do 30%, 50% e 80%.

‘O resultado era previsível’, disse Stiglitz. Taxas de juro mais altas arrasam o valor das propriedades, esmagam a produção industrial e esvaziam o tesouro nacional.

Neste ponto, segundo Stiglitz, o FMI arrasta a nação em sufoco para o Passo Três: preços baseados no mercado – um termo arrevesado para fazer subir os preços dos alimentos, da água e do gás de cozinha. Tal conduz ao Passo Três e Meio, como era de esperar: aquilo a que Stiglitz chama ‘o êxtase do FMI’.

O êxtase do FMI é fácil de prever. Quando a nação ‘está de joelhos, o FMI chupa a última gota de sangue. Avivam o fogo até que o caldeirão expluda’, – como aconteceu em 1998 na Indonésia, altura em que o FMI eliminou os subsídios para os alimentos aos pobres. A Indonésia explodiu em tumultos.

Há mais exemplos – as revoltas na Bolívia contra o preço da água no ano passado e, já em Fevereiro deste ano, as revoltas no Equador por causa do preço do gás imposto pelo Banco Mundial. Quase adivinhava que esta revolta iria acontecer.

E assim é, de facto. O que Stiglitz não sabia é que Newsnight
teve acesso a vários documentos internos do Banco Mundial. Em um deles, o relatório de progresso da Estratégia de Assistẽncia ao Equador, o Banco Mundial deixou antever repetidamente – com fria precisão – que os planos poderiam desencadear
‘convulsões sociais’.

Sem surpresa. O relatório secreto salienta que o plano de adopção do dólar dos EUA como moeda nacional colocou 51% da população abaixo do limiar da pobreza.

Os levantamentos provocados pelo IMF (manifestações pacíficas dispersas à bala, tanques e gás lacrimejante) causou também novas fugas de capital e bancarrotas do governo. Estes fogos-postos económicos têm igualmente o seu lado vantajoso – para os estrangeiros, que podem então apoderar-se dos restantes bens nacionais a preço de espólio.

Há nisto um padrão. Muitos são os perdedores, mas os vencedores inequívocos parecem ser os bancos ocidentais e o Tesouro dos EUA.

Chegamos agora ao Passo Quatro: comércio livre. Entenda-se comércio livre segundo as regras da Organização Mundial do Comércio e o Banco Mundial, organizações que Stiglitz associa às Guerras do Ópio. ‘Também estas foram feitas em nome dos mercados abertos’, afirmou. Tal como no Século XIX, os europeus e os norte-americanos de hoje estão a rebentar com as protecções aduaneiras na Ásia, América Latina e África, ao mesmo tempo que fecham as nossas fronteiras à entrada dos produtos agrícolas do Terceiro Mundo.

Na Guerra do Ópio, o Ocidente usou o bloqueio militar. Hoje, o Banco Mundial oferece o bloqueio financeiro, tão eficaz como o militar e, por vezes, quase tão mortífero.

Stiglitz levanta duas questões àcerca dos planos do FMI/Banco Mundial. Em primeiro lugar, afirma, como estes planos são delineados em segredo e submetidos a uma ideologia absolutista, nunca abrindo espaço aos dissidentes, ‘minam a democracia’. Em segundo lugar, sob a batuta da ‘assistência estrutural’ à África, as receitas deste continente caíram 23%.

Haverá alguma nação que tenha escapado a este destino? Sim, afirma Stiglitz, o Botswana. O segredo? ‘ Mandou o FMI fazer as malas’.
Stiglitz propõe uma reforma agrária radical: tributação de 50% das rendas apropriadas pelos oligarcas fundiários em todo o Mundo.

Por que razão o Banco Mundial e o FMI não seguem o seu conselho?

‘Se desafiares [os priprietários fundiários], isso representaria uma alteração do poder nas elites. Não é algo de grande prioridade na agenda destes organismos.

O que levou Stiglitz a dedicar-se à sua nova missão foi o fracasso dos bancos e do Tesouro dos EUA em alterar o seu comportamento face às crises, falências e sofrimentos pepretrados pela dança monetarista em quatro passos.

‘É como na Idade Média’, disse o economista, ‘Quando o paciente morria, diziam: Bem, parece que não sangrámos com rapidez suficiente. Restou algum sangue dentro dele.

Talvez seja tempo de remover os vampiros.

Gregory Palast

A Alemanha devia pagar as suas obrigações à Grécia, há muito em dívida

António Ferrão, 2012-02-01

No Verão de 1940 Mussolini, apercebendo-se da presença de soldados alemães nos campos petrolíferos da Roménia (um aliado da Alemanha), considerou isso um sinal perigoso da expansão da influência alemã nos Balcãs e decidiu invadir a Grécia. Em Outubro de 1940, a Grécia foi arrastada para a Segunda Guerra Mundial pela invasão do seu território. Para salvar Mussolini de uma humilhante derrota, Hitler invadiu a Grécia em Abril de 1941.

A Grécia foi saqueada e devastada pelos alemães como nenhum outro país durante a ocupação alemã. O Ministro Alemão da Economia, Walter Funk, assumiu que a Grécia sofreu as atribulações da guerra como nenhum outro país da Europa.

À sua chegada, os alemães começaram a saquear o país. Apropriaram-se de tudo o que necessitavam para a sua estadia na Grécia e despachavam para a Alemanha tudo aquilo a que conseguiam deitar a mão: alimentos, produtos industriais, equipamento industrial, mobiliário, objectos artísticos provenientes de colecções valiosas, pinturas, tesouros arqueológicos, relógios, jóias, e até os puxadores das portas de algumas casas. A produção completa das minas gregas de pirites, minério de ferro, crómio, níquel, manganésio, magnesite, bauxite e ouro foi enviada para a Alemanha. James Schafer, um executivo do petróleo americano que trabalhava na Grécia, resumiu a situação: “Os alemães estão a saquear tanto quanto conseguem, tanto abertamente como forçando os gregos a vender em troca de marcos de papel sem valor, emitidos localmente” (Mazower p.24). Mussolini queixou-se ao seu ministro dos negócios estrangeiros, o conde Ciano: “Os alemães roubaram até os cordões dos sapatos aos gregos ” (Ciano p.387).

O saque completo do país, a hiperinflação gerada pela impressão descontrolada de Marcos de Ocupação pelos comandantes locais alemães e o consequente colapso económico do país provocaram uma fome devastadora. Para além de alimentar os 200000 a 400 000 soldados de ocupação do Eixo estacionadas na Grécia, o país foi forçado a fornecer os que estavam envolvidas nas operações militares no Norte de África. Frutos, vegetais, gado, cigarros, água e até frigoríficos foram enviados do porto grego do Pireu para portos líbios (Iliadakis p. 75). A Cruz Vermelha Internacional e outras fontes estimaram que entre 1941 e 1943 pelo menos 300 000 gregos morreram de fome (Blytas p. 344, Doxiadis p.37, Mazower p.23).

A Alemanha e Itália impuseram à Grécia somas exorbitantes como despesas de ocupação para cobrir não apenas os custos de ocupação mas também para suportar os esforços de guerra alemães no Norte de África. Como percentagem do produto nacional bruto, estas somas foram muito superiores aos custos de ocupação suportados pela França (apenas um quinto dos que foram pagos pela Grécia), Holanda, Bélgica, ou Noruega. Ghigi, o plenipotenciário italiano na Grécia, disse em 1942, “A Grécia está completamente exaurida” (Mazower p. 67). Num acto de abuso de poder, as autoridades de ocupação forçaram o governo de Tsolakoglou a pagar indemnizações aos cidadãos alemães, italianos e albaneses que residiam na Grécia ocupada por prejuízos, presumivelmente ocorridos durante as operações militares. Os cidadãos italianos e albaneses receberam somas equivalentes a 783 080 dólares e 64 626 dólares, respectivamente! (Iliadakis p. 96). A Grécia, que foi destruída pelo Eixo, foi forçada a pagar a cidadãos dos seus inimigos por alegados danos que não foram provados.

Para além das despesas de ocupação, a Alemanha obteve à força um empréstimo da Grécia (empréstimo de ocupação) de 3500 milhões de dólares. O próprio Hitler conferiu carácter legal (inter-governamental) a este empréstimo e deu ordens para começar o processo de pagamento. Depois do fim da guerra, na reunião de Paris em 1946, foram atribuídos à Grécia 7100 milhões de dólares (dos 14000 pedidos) como reparações de guerra.

A Itália pagou à Grécia a sua quota-parte do empréstimo de ocupação, e tanto a Itália como a Bulgária pagaram as reparações de guerra à Grécia. A Alemanha pagou as reparações de guerra à Polónia, em 1956, sob pressão dos EUA e do Reino Unido; pagou também reparações de guerra à Jugoslávia em 1971 (para aplacar Tito e evitar que ele aderisse ao Bloco Soviético). A Grécia exigiu o pagamento da Alemanha em 1945, 1946, 1947, 1964, 1965, 1966, 1974, 1987, e em 1995 (após a reunificação da Alemanha). Antes da unificação da Alemanha, utilizando o acordo de Londres de 27 de Fevereiro de 1953, a Alemanha Ocidental evitou o pagamento das obrigações decorrentes do empréstimo de ocupação e das reparações de guerra, usando o argumento que nenhum “tratado de paz final” tinha sido assinado. Em 1964, o chanceler alemão Erhard prometeu o pagamento do empréstimo após a reunificação da Alemanha, que ocorreu em 1990. A revista alemã Der Spiegel escreveu, em 23 de Julho de 1990, que o acordo “Dois-Mais-Quatro” (assinado entre as duas Alemanhas e as quatro potências mundiais EUA, URSS, Reino Unido e França), ao preparar o caminho para a unificação alemã, fazia desaparecer o pesadelo dos pedidos de reparações que poderiam ser exigidos por todos os que tivessem sido prejudicados pela Alemanha, caso tivesse sido assinado um “tratado de paz”.

Esta afirmação do “Der Spiegel” não tem nenhuma base legal, mas é um reconhecimento dos estratagemas usados pela Alemanha para recusar um acordo com a Grécia (ver também o “The Guardian” de 21 de Junho de 2011). A mesma revista, em 21 de Junho de 2011, cita um historiador económico, Dr. Albrecht Ritschl, que aconselha a Alemanha a tomar uma atitude mais moderada na crise europeia de 2008-2011, uma vez que poderia enfrentar renovadas e justificadas exigências de reparações.

Os indicadores do valor actual das dívidas alemãs à Grécia são os seguintes: com base na taxa média de juros das Obrigações do Tesouro dos EUA desde 1944, que é cerca de 6%, estima-se que o valor actual do empréstimo de ocupação seja de 163,8 mil milhões dólares e o valor da reparação de guerra seja de 332 mil milhões de dólares.

O economista francês e consultor do governo, Jacques Delpla, declarou, em 2 de Julho de 2011, que a Alemanha deve à Grécia 575 mil milhões de euros devido a obrigações decorrentes da Segunda Guerra Mundial (Les Echos, sábado, 2 de julho, 2011).

Os alemães não levaram apenas “os cordões dos sapatos” aos gregos. Durante a Segunda Guerra, a Grécia perdeu 13% da sua população como resultado directo da guerra (Doxiadis p 38, Illiadakis p 137). Em resultado da resistência à invasão do país, quase 20.000 combatentes gregos foram mortos, mais de 100 mil foram feridos ou sofreram queimaduras com o gelo e cerca de 4.000 civis pereceram em ataques aéreos. Mas estes números são irrisórios quando comparados com a perda de vidas humanas durante a ocupação.

De acordo com estimativas moderadas, as mortes decorrentes directamente da guerra ascendem a cerca de 578 mil (Sbarounis p. 384). Estas mortes foram o resultado da fome persistente, causada pelo saque e pelas políticas económicas do Eixo e pelas atrocidades cometidas tanto como represálias, como por resposta à resistência ou como meio para aterrorizar a população grega. Os números acima não incluem as mortes que ocorreram após o fim da guerra devido a doenças como a tuberculose (400.000 casos) e a malária, desnutrição persistente, ferimentos e más condições de vida, todas elas resultado directo das condições de guerra. Assim, na Segunda Guerra Mundial a Grécia perdeu tantas vidas, sobretudo homens desarmados, mulheres e crianças, como os EUA e o Reino Unido juntos.

A maioria das atrocidades cometidas pelos alemães na Grécia teve origem diretamente em duas ordens vindas das mais altas esferas do Terceiro Reich. Uma primeira, decidida pelo próprio Hitler, ordenava que se se suspeitasse que uma residência tinha sido usada pela resistência devia ser incendiada juntamente com os habitantes. A segunda ordem, assinada pelo marechal Wilhelm Keitel, especificava que, por cada alemão morto, um mínimo de 100 reféns seriam executados e por cada alemão ferido, 50 gregos morreriam (Payne 458ff, pp 189-190 e Goldhagen pp 367-369, Blytas pp 418-419).

As primeiras execuções em massa tiveram lugar em Creta, antes de esta ser tomada pelos alemães. Em 1945, sob os auspícios das Nações Unidas, um comité liderado por Nikos Kazantzakis enumerou a destruição de mais de 106 povoações de Creta e o massacre dos seus habitantes (ver sobre o massacre de Kontomari [inglês]). Durante a ocupação, os alemães assassinaram a população de 89 aldeias e vilas gregas (ver sobre o massacre de Distomo [inglês]), enquanto mais de 1.700 povoações foram total ou parcialmente queimadas e muitos dos seus habitantes também foram executados (ver Holocausto Grego [inglês]). Às vítimas gregas do reino de terror alemão devem ser acrescentados 61.000 judeus gregos que, juntamente com 10.000 cristãos, foram deportados para campos de concentração de onde a maioria nunca voltou (Blytas p.429 and p. 446).

Outro aspecto da ocupação grega foi o saque sistemático dos muitos museus gregos, tanto sob as ordens das autoridades de ocupação, como em resultado da iniciativa de oficiais que ocupavam posições de comando. Os nomes do general von List, comandante do 12º Exército, do General Kohler, do comando de Larissa, e do general Ringel, dos comandos de Iarakleio e de Cnossos, são associados ao desaparecimento de importantes tesouros arqueológicos. List foi responsável por aceitar como presente a escultura de uma cabeça esplêndida do século IV a.C., enquanto que Ringel enviou para a Áustria várias caixas de antiguidades da histórica Vila Adriana, assim como caixas contendo pequenos objectos do Museu de Cnossos. “Roubos sancionados oficialmente” foram registados nos museus de Keramikos, Chaeronea, Museu de S. Jorge em Tessalónica, Gortynos, Irakleio, Pireu, Skaramangas, Faistos, Kastelli Kissamou, Larissa, Corinto, Tanagra, Megara, Tebas e muitos outros (Blytas p. 427). O que é especialmente trágico é que, em muitos destes saques, conhecidos arqueólogos alemães forneceram orientação especializada aos perpetradores. E embora muitas destas antiguidades tenham sido devolvidas à Grécia em 1950, a maior parte das peças de museu roubadas nunca foram encontradas.

Em Creta e noutros sítios, os comandantes alemães locais ordenaram a escavação e o saque de muitos sítios arqueológicos. Estas escavações foram levadas a cabo por arqueólogos alemães, enquanto os arqueólogos gregos, curadores e inspectores de museus foram proibidos de interferir, normalmente sob a forma de ameaças que não podiam ignorar.

Solicitamos que o governo alemão honre as suas obrigações há muito atrasadas para com a Grécia, através do pagamento do empréstimo de ocupação que obteve à força e pelo pagamento das reparações de guerra proporcionais aos danos materiais, atrocidades e pilhagens feitas pela máquina de guerra

translated by – traduzido por: Blog Aventar – visite o site português Blog Aventar

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Como um grego ensina a um alemão a História das dívidas

José Ferrão, 2011-11-11

Um cidadão alemão escreveu uma carta aberta aos gregos, publicada na revista Stern. Um grego, Georgios P. Psomas respondeu-lhe pondo os pontos em todos os iis.

Ambas foram traduzidas pelo Sérgio Ribeiro e encontrei uma versão em inglês. Esta troca de correspondência já data de 2010. Georgios conta-nos aquilo que toda a imprensa europeia cala. Merece ser lida, sobretudo por todos aqueles que têm tratado os gregos como culpados de tudo, incluindo o pecado original. e vou aqui transcrever os dois textos.

João José Cardoso



Depois da Alemanha ter tido de salvar os bancos, agora tem de salvar também a Grécia

OS GREGOS, QUE PRIMEIRO FIZERAM ALQUIMIAS COM O EURO, AGORA, EM VEZ DE FAZEREM ECONOMIAS, FAZEM GREVES

Caros Gregos,

Desde 1981 que pertencemos à mesma família.

Nós, os alemães, contribuímos como ninguém mais para um Fundo comum, com mais de 200 mil milhões de euros, enquanto a Grécia recebeu cerca de 100 mil milhões dessa verba, ou seja a maior parcela per capita de qualquer outro povo da U.E.

Nunca nenhum povo até agora ajudou tanto outro povo e durante tanto tempo.

Vocês são, sinceramente, os amigos mais caros que nós temos.

O caso é que não só se enganam a vocês mesmos, como nos enganam a nós.

No essencial, vocês nunca mostraram ser merecedores do nosso Euro. Desde a sua incorporação como moeda da Grécia, nunca conseguiram, até agora, cumprir os critérios de estabilidade. Dentro da U.E., são o povo que mais gasta em bens de consumo.

Vocês descobriram a democracia, por isso devem saber que se governa através da vontade do povo, que é, no fundo, quem tem a responsabilidade. Não digam, por isso, que só os políticos têm a responsabilidade do desastre. Ninguém vos obrigou a durante anos fugir aos impostos, a opor-se a qualquer política coerente para reduzir os gastos públicos, e ninguém vos obrigou a eleger os governantes que têm tido e têm.

Os Gregos são quem nos mostrou o caminho da Democracia, da Filosofia e dos primeiros conhecimentos da Economia Nacional.

Porém, agora, mostram-nos um caminho errado. E chegaram onde chegaram, não vão mais adiante!!!

Walter Wuelleenweber

Resposta de Georgios Psomás

Caro Walter,

Chamo-me Georgios Psomás. Sou funcionário público e não “empregado público” como, depreciativamente, como insulto, se referem a nós os meus compatriotas e os teus compatriotas.

O meu salário é de 1.000 euros. Por mês, hem!… não vás pensar que é por dia, como te querem fazer crer no teu País. Repara que ganho um número que nem sequer é inferior em 1.000 euros ao teu, que é de vários milhares.

Desde 1981, tens razão, estamos na mesma família. Só que nós vos concedemos, em exclusividade, um montão de privilégios, como serem os principais fornecedores do povo grego de tecnologia, armas, infraestruturas (duas autoestradas e dois aeroportos internacionais), telecomunicações, produtos de consumo, automóveis, etc.. Se me esqueço de alguma coisa, desculpa. Chamo-te a atenção para o facto de sermos, dentro da U.E., os maiores importadores de produtos de consumo que são fabricados nas fábricas alemãs.

A verdade é que não responsabilizamos apenas os nossos políticos pelo desastre da Grécia. Para ele contribuíram muito algumas grandes empresas alemãs, as que pagaram enormes “comissões” aos nossos políticos, para terem contratos, para nos venderem de tudo, e uns quantos submarinos fora de uso que, postos no mar, continuam tombados de costas para o ar.

Sei que ainda não dás crédito ao que te escrevo. Tem paciência, espera, lê toda a carta, e se não conseguir convencer-te, autorizo-te a que me expulses da Eurozona, esse lugar de VERDADE, de PROSPERIDADE, de JUSTIÇA e do CORRECTO.

Estimado Walter,

Passou mais de meio século desde que a 2.ª Guerra Mundial terminou. QUER DIZER MAIS DE 50 ANOS desde a época em que a Alemanha deveria ter saldado as suas obrigações para com a Grécia.

Estas dívidas, QUE SÓ A ALEMANHA até agora resiste a saldar com a Grécia (Bulgária e Roménia cumpriram, ao pagar as indemnizações estipuladas), e que consistem em:

1. Uma dívida de 80 milhões de marcos alemães em indemnizações, e que ficou por pagar da 1.ª Guerra Mundial;

2. Dívidas por diferenças de clearing, no período entre-guerras, que ascendem hoje a 593.873.000 dólares EUA.

3. Os empréstimos em obrigações que contraiu o III Reich em nome da Grécia, na ocupação alemã, que ascendem a 3,5 mil milhões de dólares durante todo o período de ocupação.

4. As reparações que deve a Alemanha à Grécia, pelas confiscações, perseguições, execuções e destruições de povoações inteiras, estradas, pontes, linhas férreas, portos, produto do III Reich, e que, segundo o determinado pelos tribunais aliados, ascende a 7,1 mil milhões de dólares, dos quais a Grécia não viu sequer uma nota.

5. As icomensuráveis reparações da Alemanha pela morte de 1.125.960 gregos (38.960 executados, 12 mil mortos como dano colateral, 70 mil mortos em combate, 105 mil mortos em campos de concentração na Alemanha, 600 mil mortos de fome, etc., etc.).

6. A tremenda e incomensurável ofensa moral provocada ao povo grego e aos ideais humanísticos da cultura grega.

Amigo Walter, sei que não te deve agradar nada o que escrevo. Lamento.

Mas mais me magoa o que a Alemanha quer fazer comigo e com os meus compatriotas.

Amigo Walter: na Grécia laboram 130 empresas alemãs, entre as quais se incluem todos os colossos da indústria do teu País, as quais têm lucros anuais de 6,5 mil milhões de euros. Muito em breve, se as coisas continuarem assim, não poderei comprar mais produtos alemães porque cada vez tenho menos dinheiro. Eu e os meus compatriotas crescemos sempre com privações, vamos aguentar, não tenhas problema. Podemos viver sem BMW, sem Mercedes, sem Opel, sem Skoda. Deixaremos de comprar produtos do Lidl, do Praktiker, da IKEA.

Mas vocês, Walter, como se vão arranjar com os desempregados que esta situação criará, que por aí vos vai obrigar a baixar o vosso nível de vida, perder os vossos carros de luxo, as vossas férias no estrangeiro, as vossas excursões sexuais à Tailândia?

Vocês (alemães, suecos, holandeses, e restantes “compatriotas” da Eurozona) pretendem que saiamos da Europa, da Eurozona e não sei mais de onde.

Creio firmemente que devemos fazê-lo, para nos salvarmos de uma União que é um bando de especuladores financeiros, uma equipa em que só jogamos se consumirmos os produtos que vocês oferecem: empréstimos, bens industriais, bens de consumo, obras faraónicas, etc.

E, finalmente, Walter, devemos “acertar” um outro ponto importante, já que vocês também são devedores da Grécia:

EXIGIMOS QUE NOS DEVOLVAM A CIVILIZAÇÃO QUE NOS ROUBARAM!!!

Queremos de volta à Grécia as imortais obras dos nossos antepassados, que estão guardadas nos museus de Berlim, de Munique, de Paris, de Roma e de Londres.

E EXIJO QUE SEJA AGORA!! Já que posso morrer de fome, quero morrer ao lado das obras dos meus antepassados.

Cordialmente,

Georgios Psomás

Cartaz americano de apoio à Grécia durante a II Guerra Mundial

Cartaz americano de apoio à Grécia durante a II Guerra Mundial.

Tradução de Sérgio Ribeiro, publicada originalmente no anónimo séc. XXI.

William Engdahl – Seeds of destruction

António Ferrão, 2011-11-08

This people has now created a new artificial pseudo-science called genetics (and genetic manipulation of plants and animals). They have a name: is the Rockefeller Foundation. Genetically Modified Organism (GMO) today is a danger to human life on this planet more dangerous, in my estimation, than nuclear holocaust.
William Engdahl Lecture in the Vatican

Levitação quântica

Alexandre, 2011-10-21

Steve Jobs – 1955-2011

José Ferrão, 2011-10-06